Pois é, já cá estou eu de volta.
Quando cheguei a primeira frase que saiu da boca da minha progenitora não foi de apreço, não foi de saudade, foi qualquer coisa do género:
"Nem parece que estiveste na praia! Estás com esse ar de drogada na mesma. Metes nojo!"Pronto, podem não ter sido estas as palavras exactas, mas foi mais ou menos esta a ideia.
Podem até pensar que este tom de pele me incomoda.
De facto não.
Este tom amarelo foi cuidadosamente produzido graças à pouca exposição solar ao longo dos últimos anos. Não porque não goste de sol, porque não gosto de pessoas - também porque sempre que me descuidava tinha de me por a pau quando ia ao indiano, se não vinha de lá cheia de molho de tomate na testa...
Não fui muito à praia também porque desconfio que não só a totalidade da nação portuguesa se deslocou até ao Algarve nos feriados, como também parte da população mundial decidiu vir comemorar o Santo Antoninho estendida ao sol e de presunto fincado no areal (diz que os alemães, por exemplo, a seguir à Oktoberfest, não há festa que mais gostem que a da sardinha assada - dizem).
Nunca, no meu perfeito juízo me deslocaria para um sítio, onde teria de aguardar em filas, ao sol, sem estacionamento, onde as pessoas se amontoam na areia, quase que partilhando o suor entre cangotes...
Mas acima de tudo, a água cheia de gente - cheia de gente que nos salpica, que pela expressão nos seus rostos descaradamente contaminam a nossa parcela de líquido da vida com ureia provinda das suas entranhas, as distâncias socialmente aceites desrespeitadas...
Sinto-me como se de repente na minha banheira de casa, em vez de repousar o meu corpo sozinho, a ele se juntarem mais uns quantos. Mas nada de fantasiosos corpos masculinos atléticos bronzeados e depilados, não, ao invés, sou acompanhada por uma idosa de touca às flores com unhas dos pés a precisarem de um formão e um indivíduo de bigode negro, com um fio de oiro ao pescoço e uma farta carpete peitoral de igual cor.
Prefiro praias desertas, onde posso correr à beira de água, em câmara lenta, de encontro à pessoa amada, onde podemos rebolar na areia e andar a cavalo envergando roupas brancas de linho, contemplando o por do sol...Peraí, isto é um video clip dos Anjos - que à sua maneira também é uma visão do inferno.